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Assentamento Bela Vista - Profa. Diana Nara


Assentamento Bela Vista


Em entrevista com a professora Diana Nara da Silva Oliveira ela nos conta sobre 
sua pesquisa acerca da criação do Assentamento Bela Vista em Jaguaruana, 
sua matéria de pesquisa na graduação e mestrado.




Memórias de Jaguaruana: Qual o assunto da sua pesquisa?

Diana Nara: Bem, na pesquisa monográfica eu pesquiso sobre o Assentamento Bela Vista. O tema da monografia é “A criação do Assentamento Bela Vista em Jaguaruana-CE de 1996 a 2014”.

Memórias de Jaguaruana: Qual a importância desse assunto para a história do município?

Diana Nara: Inicialmente a pesquisa vem servir como um documento, pois a comunidade não dispõe de nenhum registro de como surgiu o assentamento em nossa cidade, então a pesquisa vai dar esse suporte, tanto para as famílias, os assentados, para que eles possam entender esse processo de que participaram. Porque não é simplesmente um assentamento, é uma comunidade, não é uma comunidade igual as outras. É um assentamento de reforma agrária, eles tiveram uma luta e ainda tem. Então a pesquisa serve pra isso, para que as pessoas tomem consciência do que aconteceu ali, nesse processo.

Memórias de Jaguaruana: O que a levou a pesquisar sobre o Assentamento Bela Vista?

Diana Nara: As motivações pessoais, pelo fato de ter morado na comunidade durante alguns anos, minha família chegou lá em tinha uns nove. A gente morou lá por 12 anos, minha infância e minha adolescência foi lá. Estudei na escola e vi toda a construção desta comunidade. Vivi assim como os outros debaixo das lonas, então minha família esteve presente neste momento de construção da comunidade, dessa luta por uma terra, uma luta por um sonho.
Na minha monografia vou tentar abordar estas questões de uma luta, de busca de um sonho, de busca de uma terra para o trabalho, uma construção, então esta foi uma das motivações pessoais. Em seguida as indagações sobre por que a reforma agrária no nosso país funciona tão lentamente? Por que os assentamentos não conseguem se desenvolver? O governo desapropria uma terra simplesmente, mas não é necessário só a terra pra que um assentamento se desenvolva, é necessário muito mais.

Memórias de Jaguaruana: Como as pessoas veem o movimento de assentamento?

Diana Nara: Inicialmente, quando as pessoas começaram as reuniões em janeiro e fevereiro de 1996 iniciaram-se algumas reuniões aqui na cidade, aqui no bairro Alto com o movimento MST e alguns camponeses de várias localidades de Jaguaruana, do Curralinho da Barra, do Alto, algumas comunidades do interior como Lagoa da Salsa, Pacatanha, Rio Estreito. Houve um chamado, uma divulgação pelo Sindicado dos Trabalhadores Rurais para que essas pessoas viessem para as reuniões. Foram discutir o que era um assentamento, estratégias, porque nessas terras onde hoje é o assentamento funcionava uma empresa que exportava frutas chamada JOBRASA.
A JOBRASA havia decretado falência e tinha imensidões de terras que estavam sem utilidades, enquanto havia várias pessoas que moravam, por exemplo em áreas de risco, como Tabuleiro, Alto. Essas pessoas moravam de aluguel, eram assalariados. Então elas começaram a participar das reuniões e a perceber que tinham outra possibilidade conquistando essa terra. Mas quem estava fora desse processo não compreendia isso, ignoravam. Sempre fez parte da construção da história do MST o fato de discriminar-se o movimento e todos que estavam ligados ao movimento eram discriminados automaticamente.
Então quando essas pessoas foram lá para o assentamento e formaram acampamento sofreram inúmeros tipos de preconceito dentro de nossa cidade, na pesquisa vou mostrar isso.  As pessoas chamavam de vagabundos, de baderneiros, enquanto os assentados buscavam um meio de sobreviver de forma digna.
As pessoas não acreditaram, muitos pelo fato de desconhecer o que era um assentamento, o que era reforma agrária. Interessante ressaltar que o Assentamento Bela Vista foi o primeiro assentamento de Jaguaruana e também nessa região do Vale do Jaguaribe. Então a construção desse assentamento torna-se mais importante ainda por isso, porque ela deu motivação para que outros camponeses fossem atrás desse sonho. Logo em seguida outros assentamentos também se formaram em Tabuleiro do Norte, por exemplo, e vários outros.
Quando as pessoas começaram a perceber que quem estava lá não eram vagabundos, nem baderneiros, eram pessoas que estavam querendo trabalho, querendo terra para plantar seus mantimentos, para criar seus filhos de forma digna, sem ter o patrão para lhe determinar o que fazer. Foi uma construção, uma luta. A comunidade começou a lutar por escolar, pela construção de suas casas e a sociedade passou a ver de forma diferente essa luta.

Memórias de Jaguaruana: Quais curiosidades você gostaria de ressaltar?

Diana Nara: Durante a pesquisa eu já não morava mais na comunidade e tive que ir diversas vezes até lá, então participei de processos de plantação, fui com eles pra lá. Apesar de ser filha de agricultor e ter morado no assentamento durante alguns anos foi muito bom porque eu pude ter um contato maior como pesquisadora, estava no campo com alguns entrevistados plantando e conversando. Foi uma outra visão que eu pude ter, quando eu morava lá era uma, quando voltei como pesquisadora era outra forma de ver.
Através das entrevistas pude entender várias questões que regulam o assentamento, pude entender INCRA, pude compreender mais a questão agrária do Brasil, porque é tão difícil se desenvolver a reforma agrária no nosso país, como é difícil um camponês trabalhar sozinho, sem infraestrutura, sem técnico para auxílio. Essas foram algumas curiosidades que eu pude descobrir ao longo da minha pesquisa.

Memórias de Jaguaruana: Após sua pesquisa, quais conclusões pode-se tirar?

Diana Nara: Pude identificar quais eram as principais dificuldades que os assentados enfrentaram e quais foram as alternativas que encontraram para superá-las. O assentamento hoje já tem vinte anos de história, são inúmeras mas as dificuldades estão sendo vencidas.

Memórias de Jaguaruana: Então, de certa forma houve um “progresso”, um crescimento da população comunidade, conquistas como escola, casas que eram barracas e agora são de alvenaria.

Diana Nara: Isso. No primeiro ano era um acampamento, estágio em que ainda não se tem posse da terra, estão na terra, mas não podem mexer nela, nem dividir entre si. Ainda não se tem a emissão de posse. Neste primeiro ano eles viveram embaixo das lonas, embaixo das mangueiras, vivendo a partir de doações da comunidade de Jaguaruana.

Memórias de Jaguaruana: Nesse primeiro quantas família havia?

Diana Nara: O cadastro inicial tinha 174 famílias, é muita gente. 174 cadastros, claro que nesse primeiro momento não estavam todos lá, mas geralmente tinha um representante, pois as pessoas não queriam levar sua família para morar embaixo da lona. Geralmente iam mais os homens. Esse momento foi muito decisivo, foi momento de resistência. Lutaram por muita coisa, inicialmente pela posse da terra.

Memórias de Jaguaruana: Essa luta é feita junto ao governo?

Diana Nara: Sim, com o governo, junto ao INCRA, que é o órgão que trabalha diretamente com a distribuição de terras da reforma agrária.
No caso do Assentamento Bela Vista se tornou ‘um pouco mais fácil’ porque quando os camponeses foram para lá a empresa JOBRASA já tinha decretado falência. Então aquelas terras já estavam prontas para serem desapropriadas. Tem assentamentos que demoram cinco, seis anos e aqui no Bela Vista foi um ano. Dentro de um ano eles receberam a emissão de posse. Já poderiam trabalhar naquela terra, eram casas de lona, mas poderiam trabalhar.
Esse primeiro ano também foi muito forte, pois o assentamento tinha uma ligação muito forte com o MST (Movimento dos Sem Terra), então o MST lutou pela escola, começaram a alfabetizar as crianças, não eram muitas, mas é um dos objetivos do MST. Onde tem acampamento, tem que ter escola. A primeira escola foi a do MST, começaram a alfabetizar, não era ensino formal.
Quando se percebeu que era um negócio sério, começou a chegar gente. Foi preciso que as crianças fossem estudar em uma comunidade vizinha, porque a escola já não comportava mais, foram para o Pacatanha.
Depois vieram as agrovilas, foram construídas 174 casas de um mesmo padrão. Hoje são mais de mil pessoas morando no assentamento. Os filhos vão construindo as casas do lado do pai. É muito grande.

Memórias de Jaguaruana: Como se dividiu a sua pesquisa?

Diana Nara: O primeiro capítulo é De volta ao campo: a ocupação da fazenda JOBRASA e a construção do Assentamento Bela Vista, conto o começo. Em alguns momentos descrevo realmente o que aconteceu com palavras deles, pois entrevistei oito pessoas do assentamento, falta de água, muitas vezes falta de comida. Dividiam o pouco que tinham. Trato das dificuldades, como era viver embaixo das lonas, comer a partir de doações.
No segundo capítulo vou falar Da lona a alvenaria: organização espacial do Assentamento Bela Vista. Falo da construção das agrovilas, quando puderam ter uma dignidade maior, então isso vai dar outro sentido para a luta deles. Algumas dessas pessoas moravam em casas do interior cedidas e o fato de se ter uma casa para morar já lhes dá maior dignidade.
Memórias de Jaguaruana: Como era feita a distribuição das terras?
Diana Nara: Cada assentado tem hoje 18 hectares de terra. Dividiu-se entre o número de pessoas e veja só o novo sentido pra vida criado com essa distribuição para quem nem sequer tinha o quintal passar a ter 18 hectares pra plantar, criar.

Memórias de Jaguaruana: E aí a comunidade hoje funciona e tem plantações de diversas culturas?

Diana Nara: Tem, apesar de eles terem diversos problemas que é o terceiro capítulo Entre secas e enchentes. Quando tem enchente ficam ilhados, isso atrapalha a escola, a vida dos camponeses. E em especial a seca que é com o que convivemos a maior parte do tempo, eles não têm projetos de irrigação, como a água é muito escassa, tem poços, mas não dão conta. Faltam incentivo, políticas públicas, falta um técnico para orientá-los a trabalhar, a conviver com o semiárido. Então eles vão sobrevivendo.
Alguns que tem alguma condição, com o passar do tempo vão trabalhando e acumulando alguma coisa. Esses que conseguiram acumular tem projetos de irrigação por conta própria, pessoas plantam bananas e várias outras culturas. Mas tem aqueles sem condição, só esperam pela chuva.
No capítulo final vou fazendo um fechamento, falando dessas dificuldades, a evolução, o que eles conseguiram. Porque mesmo com tanta dificuldade eles tem uma história de vinte anos. Construíram essa comunidade com as próprias mãos. Apesar de tudo hoje tem o lugar, a identidade deles.


Diana Nara da Silva Oliveira, graduada em História pela UECE,
pós-graduada em Gestão Escolar e Mestre em Educação e Ensino pela UECE.
Entrevista em 09 de maio de 2017.